PARASHÁ

SHOFETIM

שֹֽׁפְטִ֣ים

Juízes

Deuteronômio 16:18 - 21:9

1: Dt 16:18 – 17:13

2: Dt 17:14-20

3: Dt 18:1-5

4: Dt 18:6-13

5: Dt 18:14 – 19:13

6: Dt 19:14 – 20:9

7: Dt 20:10 – 21:9

Estudo

Haftará: Isaías 51:12 – 52:12

Brit Chadashá: Atos 3:22-23

Mishná Yoma: 

Segundas e Quintas:

16:18-20 – 3 p’sukim
16:21 – 17:10 – 12 p’sukim
17:11-13 – 3 p’sukim

RESUMO

Parashá Shofetim

“Juízes e oficiais nomearás para ti, em todas as tuas cidades” (Devarim 16:18). Repare no pronome: lecha, para ti. O mandamento manda a nação organizar tribunais nas portas de cada cidade e, ao mesmo tempo, dirige-se à pessoa, no singular. A leitura chassídica lê “tuas cidades” como as portas do próprio corpo: os olhos, os ouvidos, a boca, cada uma precisando do seu juiz. E não é coincidência de calendário: Shoftim é lida todos os anos dentro do mês de Elul, o mês em que a tradição pede que cada pessoa monte, dentro de si, o mesmo tribunal que a Torá manda instalar em cada cidade.

O que acontece na porção

Parashat Shoftim ocupa Devarim 16:18 a 21:9 e reúne 41 mitzvot na contagem clássica do Sefer HaChinuch (números 491 a 531), a maior concentração de leis sobre autoridade e justiça na Torá. A porção trata de:

  • A ordem central da parashá, “Tzedek tzedek tirdof”, justiça, justiça perseguirás (16:20), com a palavra repetida duas vezes: os sábios leem essa repetição como exigência de meios justos para alcançar fins justos, não apenas o resultado final.
  • A proibição de plantar uma árvore de culto (asherah) ou erguer um pilar (matsevá) perto do altar, e de sacrificar um animal com defeito temporário.
  • As leis do rei: caso o povo peça um, ele precisa ser escolhido por D’us, está proibido de multiplicar cavalos, esposas, prata ou ouro, e deve escrever para si um segundo rolo da Torá que o acompanha sempre, como lembrete constante do limite do próprio poder.
  • A porção da tribo de Levi, que não herda terra e vive dos dízimos e das ofertas do povo, porque “o Eterno é a sua porção” (18:2).
  • A proibição total de clarividência, magia, invocação de espíritos e consulta aos mortos, contrastada com a promessa de um profeta verdadeiro como Moshé, e o teste severo para reconhecer um falso profeta.
  • As seis cidades de refúgio, reservadas para quem mata sem intenção, e a exigência de duas testemunhas para qualquer acusação, com a pena de talião revertida contra a testemunha que conspira para destruir a vida de um inocente.
  • As leis de guerra: quem construiu casa nova, plantou vinha nova, está noivo ou sente medo é dispensado do combate; antes de cercar uma cidade, oferece-se paz; e mesmo em cerco, é proibido destruir árvores frutíferas, Bal Tashchit (20:19), o Mandamento da Semana desta parashá.
  • O ritual da eglá arufá: quando um corpo é encontrado entre cidades sem culpado identificado, os anciãos da cidade mais próxima quebram o pescoço de uma novilha e declaram publicamente “nossas mãos não derramaram este sangue” (21:1-9).

Quando no calendário

Historicamente, Shoftim faz parte do mesmo segundo discurso de Moshé nas planícies de Moav que abriu Re’eh, no mês de Shevat do ano 2488, semanas antes de sua morte e da entrada do povo na Terra.

No calendário litúrgico, Shoftim é lida todos os anos em um Shabat de Elul, o mês que antecede Rosh Hashaná (em 2026, foi em 15 de agosto, dois dias depois do início de Elul, em 13 de agosto). Não é acaso que a Torá coloca “juízes e oficiais nomearás para ti” logo na abertura desse mês. Elul é conhecido como o mês em que “o Rei está no campo”, mas é, ao mesmo tempo, o mês do tribunal interior, do Cheshbon HaNefesh, o exame de consciência que prepara o julgamento de Rosh Hashaná. Shoftim entrega a estrutura do tribunal; Elul entrega o prazo para usá-lo.

Guia de estudo

Pshat / Rashi: sobre o pronome “lecha”, Rashi conecta ao princípio ensinado em Rosh Hashaná 25b: “Yiftach em sua geração é como Shmuel em sua geração”. Cada geração precisa aceitar os juízes que tem, mesmo que pareçam menores que os do passado. O mandamento pede para instalar o processo de julgamento com quem está disponível agora, inclusive dentro de si mesmo, em vez de esperar por um juiz perfeito.

Drash-Halachá / Ramban: Ramban comenta a exigência de “darosh heitev”, investigar bem qualquer acusação antes de julgar (13:15, 17:4), princípio que reaparece nas leis de testemunhas desta parashá: nenhuma pena se aplica sem investigação minuciosa. A halachá protege o acusado com o mesmo rigor com que persegue a justiça. “Tzedek tzedek”, repetido duas vezes, porque um processo apressado não produz um resultado justo, mesmo quando acerta por acaso.

Kabalah: o post de Rosh Chodesh Elul já trabalhou a mão esquerda como o controlador do sentido de ação no mês. Shoftim é onde essa mão vira lei: a mão que disciplina, que barra, que julga antes de abençoar. A Cabalá ensina que din, julgamento, sempre precede rachamim, misericórdia, no processo de teshuvá. Reconhecer o erro com clareza é o primeiro degrau que nenhum retorno genuíno consegue pular.

Chassidut: o Baal Shem Tov ensinava que tudo o que a pessoa vê carrega uma lição para o próprio serviço espiritual. Um tribunal terreno, com juízes visíveis, lembra que existe um Tribunal Superior observando cada ação, inclusive as que ninguém mais vê. Instalar “juízes para ti” é aceitar essa vigilância antes que ela seja imposta de fora, em Rosh Hashaná.

Mussar: a eglá arufá é o mandamento mais estranho da porção, e o mais mussarista. Os anciãos da cidade mais próxima declaram publicamente que não têm culpa pela morte de um estranho que talvez nunca tenham visto. Os sábios explicam a declaração de outro jeito: ela pesa sobre a hospitalidade que esse viajante recebeu, se foi acolhido, alimentado, acompanhado até sair da cidade em segurança. Responsabilidade coletiva cobre também o que se deixou de fazer por quem passou perto.

Esse é também o pano de fundo do Mandamento da Semana desta parashá: Bal Tashchit, a proibição de destruir árvores frutíferas mesmo em guerra, o limite ético que a Torá impõe até no momento mais extremo.

O tribunal que Shoftim manda instalar não se fecha no Shabat em que a parashá é lida. Elul, o mês em que ela aparece no calendário, é o prazo que a tradição dá para julgar a si mesmo antes do Tribunal do Alto abrir, em Rosh Hashaná. Se você quer atravessar esse exame de consciência acompanhado, e não sozinho, há um caminho.


É SOBRE PODER 

No antigo Israel, havia duas instituições formais de governança, o poder executivo e a ordem sacerdotal, cada uma com certos limites de poder embutidos.

Um rei é necessário para focar e dirigir o estado, particularmente durante a guerra. Os poderes do rei são limitados pelo pergaminho do ensinamento. Ele é ordenado a fazer uma cópia da Torá rolar para si mesmo e mantê-lo sempre com ele. O ensinamento serve como uma estrutura constitucional geral, mas há três regras explícitas que se aplicam especificamente ao rei. Ele não deve ter muitas esposas, muitos cavalos ou muito ouro e prata. O poder político, militar e econômico do rei é, portanto, limitado funcional e simbolicamente.

O Templo serve como centro para outra força de liderança. Os sacerdotes e levitas administram o Templo, conduzem seus sacrifícios, instruem o povo nos detalhes da adoração e da pureza ritual, fornecem acompanhamento musical e organizam os festivais. Eles são os preservadores da memória sagrada.

O poder deles também é limitado. Eles não devem receber uma porção quando a terra for dividida entre as tribos. Eles devem comer das contribuições, dízimos e ofertas especiais do povo. Aqueles encarregados da tarefa de preservar a memória sagrada não podem ser sobrecarregados com o trabalho de ganhar a vida com a terra. Mas eles também são privados do acesso ao poder que a terra implica. Eles, ao contrário de seu povo, não são da terra e, consequentemente, são mais livres talvez para sonhar, menos acorrentados a limites horizontais. Como diz: “Eles não terão porção entre suas tribos irmãs; o Senhor é a sua porção”(Deuteronômio 18:2).
(Rabino Steve Greenberg)

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