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Devarim 26:5: o Versículo Que Rashi Lê ao Contrário da Sua Tradução

Pegue qualquer Bíblia em português e procure Devarim (Deuteronômio) 26:5. A frase de abertura, quase sempre, sai parecida com isto: “um arameu errante foi meu pai”. Soa poético, soa humilde, o patriarca descrito como um nômade sem raiz. É também, segundo o comentarista mais citado da tradição judaica, uma leitura ao contrário do que o texto hebraico realmente diz.

Três palavras, duas frases opostas

O hebraico é curto: אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי (arami oved avi), literalmente “arameu, perder/destruir, meu pai”. O problema é que essas três palavras, soltas, não dizem sozinhas quem faz o quê a quem. “Arami” (arameu) pode ser sujeito ou pode estar descrevendo “avi” (meu pai). “Oved” pode ser lido como adjetivo, “perdido, errante”, concordando com o sujeito, ou como verbo, “destruiu / tentou destruir”, com “avi” como objeto de uma ação vinda de fora.

Rashi, o comentarista clássico do século XI cuja leitura serve de base pra maioria das traduções judaicas até hoje, não lê “meu pai era um arameu errante”. Ele lê o oposto gramatical: “um arameu buscou destruir meu pai.” Nessa leitura, “arami” é o sujeito, o Arameu, e “avi”, meu pai, é quem sofre a ação. O texto de Rashi (baseado no Sifrei Devarim 301:3, o mesmo texto usado na Hagadá de Pêssach) é direto: “Lavan quis erradicar tudo quando perseguiu Yaakov (Jacó), e por ter tido a intenção de fazer, o Céu considerou como se ele tivesse feito, porque para as nações do mundo D’us conta a intenção como se fosse o ato.”

Ou seja: “arami” aponta para Lavan, o sogro arameu que perseguiu Yaakov no caminho de volta a Canaã (Bereshit/Gênesis 31), com intenção clara de acabar com ele e sua família inteira. A frase inteira muda de “meu pai era um forasteiro sem lugar” para “um arameu tentou destruir meu pai”, e a Torá conta essa tentativa como se tivesse acontecido de fato, mesmo Lavan não tendo conseguido.

Por que isso muda o que a frase está dizendo

Esse versículo abre a declaração de Bikurim, as primícias, o discurso obrigatório que todo agricultor recitava em voz alta ao entregar os primeiros frutos da colheita no Templo (Devarim 26:1-11). A palavra logo antes, “ve’anita” (“e declararás”), o próprio Rashi nota que é termo pra “levantar a voz” (Sotá 32b): a declaração era dita em público, em voz alta.

Se a primeira frase dessa declaração pública é “meu pai era um errante”, a história começa em humildade genérica. Se a primeira frase é “um inimigo tentou nos destruir”, a história começa em sobrevivência: antes mesmo de chegar ao Egito, antes da escravidão, já havia alguém tentando apagar a linhagem. A gratidão que fecha a declaração alguns versos depois, “e agora trago as primícias da terra que Tu, D’us, me deste” (26:10), pesa diferente quando o ponto de partida é uma ameaça real, revertida, e não um simples desamparo.

O eco disso na Hagadá

Se essa leitura soa familiar mesmo pra quem nunca abriu um comentário de Rashi, é porque ela está no centro do Seder de Pêssach. Na seção Maggid, o texto de “arami oved avi” é expandido palavra por palavra, é o esqueleto sobre o qual a narrativa inteira do Êxodo é recontada todo ano. A mesma frase que abre a declaração de Bikurim na Torá é a mesma que organiza a história contada na mesa do Seder, com a mesma leitura: um arameu que tentou destruir, e não um arameu perdido.

Da próxima vez que ler essa frase numa tradução comum, vale parar no “arameu errante” e lembrar: o hebraico, sozinho, nunca disse isso com clareza. Quem decidiu essa clareza foi a tradição, lendo palavra por palavra, sem atalho.

Este verso faz parte da declaração de Bikurim, um dos mandamentos centrais de Parashat Ki Tavo. O guia completo da porção, com o restante dos comentaristas, está no artigo da parashá.

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