PARASHÁ

KI TAVÔ

כִּֽי־תָב֣וֹא

Quando entrar

Deuteronômio 26:1 - 29:8

1: Dt 26:1-11

2: Dt 26:12-15

3: Dt 26:16-19

4: Dt 27:1-10

5: Dt 27:11 – 28:6

6: Dt 28:7-69

7: Dt 29:1-8

Estudo

Haftará: Isaías 60:1-22

Brit Chadashá: Efésios 1:3-6

Mishná Yoma: 

Segundas e Quintas:

26:1-3 – 3 p’sukim
26:4-11 – 8 p’sukim
26:12-15 – 4 p’sukim

RESUMO

Parashá Ki Tavô

Existe uma palavra que a Torá repete sempre que entrega um mandamento, e Rashi levou essa palavra a sério: “hoje”. Em Devarim (Deuteronômio) 26:16, o texto diz: “Hoje o Senhor teu D’us te ordena guardar estes estatutos.” Só que esse mandamento já tinha sido dado décadas antes, no Sinai. Por que dizer “hoje”, como se fosse novidade?

A resposta de Rashi, citando o Midrash Tanchuma (uma coletânea antiga de ensinamentos rabínicos), seção Ki Tavo 1: cada mandamento deve ser recebido como se a pessoa o estivesse recebendo pela primeira vez naquele exato dia, sem o cansaço de quem já o conhece de cor. E o mesmo versículo guarda uma segunda camada. Sobre “guardarás e farás”, Rashi traz a bat kol, a voz celestial que, segundo o mesmo Midrash, abençoa quem cumpriu o mandamento naquele dia: “trouxeste hoje, terás o privilégio de trazer de novo no próximo ano.” Duas leituras, um mesmo alvo: a obediência sincera de hoje sustenta o amanhã, como promessa e sem ameaça condicional.

Esse “hoje” fica no meio de uma das partes mais importantes da porção: fecha a declaração das primícias (Bikurim) e abre a etapa seguinte. Veja como a porção inteira se encaixa.

O que acontece na porção

Ki Tavo, “quando você entrar”, nome que vem da abertura da porção, ocupa Devarim 26:1 a 29:8 e fecha o terceiro discurso de Moshê (Moisés) nas planícies de Moav, às vésperas da travessia do rio Jordão rumo à Terra Prometida. A estrutura:

  • Bikurim, as primícias (26:1-11): o agricultor recita em voz alta toda a jornada do povo, da escravidão no Egito até a terra prometida, com a oferta nas mãos. Entregar o fruto e contar a própria história acontecem juntos.
  • A declaração do dízimo (26:12-15): confirmação verbal de que o dízimo do terceiro ano, uma parte da colheita reservada por lei para quem não tinha terra, foi entregue corretamente ao levita (auxiliar do Templo, sem propriedade própria), ao órfão e à viúva.
  • O selo (26:16-19): o versículo em questão, seguido da reafirmação mútua da aliança: D’us escolhe Israel, Israel se compromete a guardar os mandamentos.
  • As pedras nos montes Eival e Gerizim (27): a aliança gravada em pedra, com metade das tribos pronunciando bênçãos e metade maldições.
  • A Tochachá (28): a longa sequência de consequências, lida em voz baixa por costume nas sinagogas.

Quando no calendário

Ki Tavo é lida todos os anos no fim de Elul, o mês dedicado ao arrependimento que antecede Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico (em 2026, foi no Shabat de 29 de agosto). A comunidade chega a este “hoje” de Devarim 26:16 na reta final do mês, quando o maior risco costuma ser menos a rebeldia e mais o hábito: deixar a teshuvá, o retorno, o arrependimento ativo, virar rotina de época, mais uma temporada que se repete sem tocar em nada. O verso chega como remédio direto para esse risco.

Guia de estudo

Leitura direta do texto (Pshat) e Rashi: os dois comentários já servem de eixo para a porção inteira. “Hoje” descarta o piloto automático espiritual: cada cumprimento de mandamento pede para ser recebido como novidade. E a bênção da bat kol reformula o que parece condicional como promessa: quem cumpre com sinceridade hoje recebe a continuidade como privilégio.

Halachá (lei judaica prática): Bikurim está classificado entre os mandamentos dependentes da Terra de Israel (mitzvot teluyot ba’aretz), e o Sefer HaChinuch, obra clássica que cataloga e explica os 613 mandamentos da Torá, marca este como um dos poucos que exige declaração falada, além do ato. A Torá pede que a gratidão seja posta em palavras, em voz alta, diante de outra pessoa. É o mesmo princípio que Devarim 26:16 fecha: fé que não se renova em expressão viva fica velha.

Mussar (tradição de refinamento de caráter e ética prática): a leitura direta do próprio Rashi já é mussar. A fadiga espiritual costuma nascer da rotina: o mandamento cumprido por hábito, sem a pessoa presente nele. O antídoto que a Torá prescreve aqui é a presença: tratar o gesto de hoje como se ainda não tivesse virado costume.

Fechando o círculo

O mesmo “hoje” que fecha Bikurim atravessa a Brit Chadashá (Novo Testamento) em outro lugar: Hebreus 3 e 4 citam o Salmo 95 repetindo “hoje, se ouvirem a Sua voz, não endureçam o coração”, e Paulo escreve com a mesma urgência em 2 Coríntios 6:2, “eis agora o dia da salvação.” O princípio de Rashi atravessa o cânone inteiro: o convite se dirige sempre ao hoje.

Se Ki Tavo chega até você com uma fé que engessou de tanto se repetir, este é o texto que confronta exatamente isso. Tratar o gesto de hoje como novo é o primeiro passo para tirá-la do automático.


HISTÓRIA E MEMÓRIA 

Meu pai era um arameu errante. Ele desceu ao Egito… os egípcios nos trataram duramente.… Clamamos ao Senhor… O Senhor nos libertou com mão poderosa… nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra.(Deuteronômio 26:5-9)

Esta passagem foi recitada pelos israelitas quando trouxeram as primícias ao santuário. É um excelente exemplo da interação do ritual e da recitação a serviço da memória. Os fundamentos da história judaica estão todos aqui em uma fórmula tão poderosa que os rabinos do segundo século usaram esta passagem para introduzir a discussão do Êxodo na Hagadá da Páscoa .

No Hagadá , no entanto, os rabinos omitem o versículo que descreve Deus trazendo o povo para a terra. É compreensível que os rabinos que vivem com a perda do Templo e da soberania sobre a terra queiram tirar a ênfase do foco na terra. Ao omitir a referência à terra e focar no próprio Êxodo, a dura realidade da destruição foi mitigada. Isso nos fornece uma visão sobre o funcionamento da memória coletiva das pessoas. Um povo precisa se perguntar o que lembrar e o que esquecer. Para qualquer povo, certos elementos do passado — históricos ou míticos — tornam-se centrais e são transmitidos (lembrados), enquanto outros elementos são esquecidos.

Em certos momentos da história — crise, catástrofe, milagre — grupos humanos, proposital ou passivamente, deixam de transmitir o que sabem do passado ou de recorrer a elementos esquecidos com os quais há um renovado senso de reconhecimento.

No segundo século, os rabinos, em resposta à catástrofe, escolheram não transmitir a memória de nossa história como era recitada na liturgia do Templo. Eles escolheram ativamente lembrar e esquecer.

Tendo experimentado catástrofes e milagres sem precedentes em nosso século, não deveria nos surpreender que nós, como povo, estejamos lutando com quais partes do nosso passado lembrar e quais partes precisamos esquecer. Talvez devêssemos reinserir o verso: “E Deus nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra!”

(Por Rabino Irwin Kula)

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