Hoje é Quarta-feira, 15 jul. 2026 | 1 Av, 5786 Parashá da semana: Parashat Devarim Acendimento das velas (SP): 5h:20

Shabat Nachamu: O shabat da Consolação

Depois das três semanas de luto e da intensidade de Tishá beAv, a comunidade entra em um período de reconstrução. O primeiro Shabat após esse dia recebe o nome de Shabat Nachamu, por causa das palavras que abrem a Haftarah:

נַחֲמוּ נַחֲמוּ עַמִּי יֹאמַר אֱלֹהֵיכֶם

Nachamu nachamu ami, yomar Eloheichem.

“Consolem, consolem Meu povo, diz vosso Deus.”

Yeshayahu 40:1

Shabat Nachamu inicia uma sequência de sete Haftarot de consolação, conhecidas como Shiva Denechemta, lidas entre Tishá beAv e Rosh Hashaná. Depois de lembrar a destruição de Jerusalém, a comunidade começa uma caminhada em direção à restauração.

Diante disso, surge uma pergunta importante: como uma comunidade pode consolar de verdade sem ignorar a dor, oferecer respostas vazias ou agir como se tudo já tivesse passado?

A consolação não apaga a dor

Shabat Nachamu não cancela o luto vivido em Tishá beAv. A consolação apresentada por Yeshayahu só pode ser compreendida porque a perda foi reconhecida. O Talmud ensina:

כָּל הַמִּתְאַבֵּל עַל יְרוּשָׁלַיִם זוֹכֶה וְרוֹאֶה בְּשִׂמְחָתָהּ

Kol hamitabel al Yerushalayim, zocheh veroeh besimchatah.

“Todo aquele que se lamenta por Jerusalém merece ver sua alegria.”

Talmud Bavli, Taanit 30b

Os sábios não tratam o luto como falta de fé. A pessoa que reconhece a destruição também consegue compreender o valor da restauração. A esperança bíblica não nasce da negação da dor, mas da certeza de que Adonai pode reconstruir aquilo que foi quebrado.

Por isso, uma comunidade não deve apressar o sofrimento de seus membros. Frases como “você precisa ser forte” ou “logo tudo ficará bem” podem ter boa intenção, mas nem sempre consolam. Em muitos momentos, a pessoa precisa primeiro ser ouvida, acolhida e acompanhada.

Pirkei Avot 4:18 ensina que não se deve consolar alguém enquanto seu morto ainda está diante dele. Isso não significa abandonar quem sofre, mas respeitar o momento da dor. Existe uma hora para falar e uma hora para simplesmente permanecer ao lado da pessoa.

“Consolem, consolem Meu povo”

A repetição da palavra nachamu mostra a intensidade dessa ordem. Não se trata de oferecer uma palavra rápida e seguir adiante. A consolação precisa continuar enquanto a pessoa ou a comunidade estiver reconstruindo sua vida.

Também é importante perceber que a ordem está no plural. A responsabilidade de consolar não pertence apenas ao rabino ou aos líderes. Toda a comunidade é convocada a participar. Alguns consolam por meio de palavras, outros por meio da escuta, da presença, da ajuda material ou de atitudes práticas.

Adonai também não diz apenas “consolem o povo”, mas “consolem Meu povo”. Mesmo depois do pecado, da destruição e do exílio, Israel continua pertencendo a Ele. A disciplina não anulou a aliança.

Na Parashat Vaetchanan, lida em Shabat Nachamu, Moshe declara:

“Quando estiveres em angústia e todas estas coisas te alcançarem, no fim dos dias retornarás a Adonai, teu Deus, e ouvirás Sua voz. Porque Adonai, teu Deus, é Deus misericordioso. Ele não te abandonará, não te destruirá e não se esquecerá da aliança que jurou aos teus pais.”

Devarim 4:30 e 31

A consolação começa quando a pessoa entende que ainda pertence. Mesmo depois de uma queda, existe um caminho de retorno. Mesmo depois de uma crise, a história da comunidade não terminou.

Falar ao coração

Yeshayahu continua:

דַּבְּרוּ עַל לֵב יְרוּשָׁלַיִם

Daberu al lev Yerushalayim.

“Falem ao coração de Jerusalém.”

Yeshayahu 40:2

Falar ao coração é mais do que transmitir uma informação correta. É alcançar o lugar onde estão guardados o medo, a tristeza e a esperança.

Uma comunidade pode possuir muitos ensinamentos e ainda assim não perceber a dor de quem está próximo. Pode ter uma programação cheia, mas não notar uma família que deixou de participar. Pode ensinar sobre misericórdia e responder com dureza quando alguém falha.

Shabat Nachamu ensina que a verdade deve ser transmitida com sensibilidade. A mensagem correta, quando apresentada sem cuidado, pode não alcançar quem mais precisa dela.

Consolar é imitar Adonai

Em Sotah 14a, o Talmud ensina que devemos imitar as atitudes de Adonai:

“Assim como o Santo, bendito seja, consolou os enlutados, também tu deves consolar os enlutados.”

A fonte está em Bereshit 25:11, quando Adonai abençoa Yitzchak depois da morte de Avraham. Os sábios entendem essa bênção como uma forma de consolação. Adonai não permaneceu distante da dor de Yitzchak, mas Se aproximou dele.

Por isso, uma comunidade que deseja refletir o caráter do Criador não pode ignorar o sofrimento de seus membros. Consolar pode signific preparar uma refeição para uma família enlutada, visitar uma pessoa enferma, ajudar alguém que perdeu o emprego, acompanhar quem enfrenta um tratamento ou procurar uma pessoa que deixou de frequentar a comunidade.

Em muitos casos, uma atitude prática alcança o coração com mais força do que um longo discurso.

Preparar um caminho no deserto

A Haftarah também declara:

“Uma voz clama: no deserto, preparem o caminho de Adonai. Endireitem, na planície, uma estrada para nosso Deus.”

Yeshayahu 40:3

A consolação bíblica não é passiva. Ela convida o povo a preparar um caminho. Yeshayahu afirma que os vales serão elevados e os montes serão rebaixados. Essa imagem também pode ser aplicada à vida comunitária.

Existem vales que precisam ser elevados. Pessoas desanimadas precisam ser fortalecidas, famílias esquecidas precisam ser procuradas, jovens precisam de orientação e idosos precisam continuar fazendo parte da vida da comunidade.

Também existem montes que precisam ser abaixados. O orgulho, as disputas por posições, a necessidade de reconhecimento e os conflitos pessoais não podem ser maiores do que a missão da comunidade.

Preparar o caminho de Adonai significa remover obstáculos que impedem as pessoas de se aproximarem Dele e umas das outras.

Quando a comunidade enfrenta suas próprias ruínas

O princípio de Shabat Nachamu também se aplica quando a própria kehilá atravessa dificuldades. Pode haver conflitos, pessoas magoadas, projetos que não deram certo, problemas financeiros ou perda de confiança.

Nessas situações, consolar não significa fingir que nada aconteceu. A restauração exige reconhecer erros, pedir perdão, ouvir as pessoas envolvidas e corrigir o que for possível.

Uma comunidade não se reconstrói apenas com novos projetos ou uma programação maior. Ela se reconstrói quando os relacionamentos são tratados, quando a confiança é restaurada e quando existe disposição para mudar.

Jerusalém não poderia ser consolada sem que suas ruínas fossem reconhecidas. Da mesma forma, nenhuma comunidade experimenta restauração verdadeira enquanto evita conversar sobre suas feridas.

Cada pessoa possui um nome

Yeshayahu declara:

“Levantem os olhos para o alto e vejam quem criou estas coisas. Aquele que faz sair o exército das estrelas pelo seu número, chamando todas pelo nome.”

Yeshayahu 40:26

Aquele que conhece cada estrela pelo nome também conhece cada pessoa. Nenhum membro da comunidade deveria ser tratado apenas como um número.

Uma comunidade de consolação percebe quando alguém está ausente, reconhece a dor de uma família, acolhe quem está chegando e valoriza crianças, jovens, adultos e idosos. Conhecer alguém pelo nome significa reconhecer sua presença, sua história e suas necessidades.

Isso pode ser visto em situações muito comuns. Uma família que perdeu alguém continua necessitando de cuidado depois que as primeiras mensagens diminuem. Uma pessoa que perdeu o emprego talvez precise de ajuda para preparar um currículo ou encontrar oportunidades. Um jovem que se afastou pode precisar ser ouvido antes de ser julgado. Uma pessoa nova na sinagoga precisa encontrar mais do que um cumprimento rápido. Ela precisa sentir que existe lugar para ela.

Essas ações transformam a comunidade em um espaço de acolhimento e restauração.

Uma reflexão para toda a comunidade

Shabat Nachamu não é apenas um nome no calendário. É uma convocação para transformar o luto em compromisso com a reconstrução.

Depois de recordar a destruição, somos chamados a cuidar das ruínas. Depois de ouvir o choro de Jerusalém, somos chamados a falar ao seu coração. Depois de lamentar o que foi perdido, somos chamados a levantar os olhos.

Toda comunidade precisa perguntar quem está sofrendo em silêncio, quem deixou de participar e ainda não foi procurado, qual família necessita de ajuda e quais relacionamentos precisam ser restaurados.

A consolação não é responsabilidade apenas da liderança. A ordem está no plural: nachamu, consolem.

Uma kehilá se torna um lugar de consolação quando ninguém precisa sofrer sozinho, quando a dor é tratada com respeito e quando a esperança é acompanhada por atitudes concretas.

Que Shabat Nachamu desperte em nós uma fé que não ignora as ruínas, mas também não permanece presa a elas. Que nossa comunidade seja um lugar onde os cansados encontrem apoio, os feridos encontrem cuidado, os afastados encontrem um caminho de retorno e os que choram encontrem pessoas dispostas a permanecer ao seu lado.

Que nossas palavras e atitudes permitam que cada pessoa ouça novamente a declaração de Adonai:

“Vocês continuam sendo Meu povo.”

Notas de leitura

  1. Shabat Nachamu significa “Shabat da Consolação”. O nome vem da primeira palavra da Haftarah de Yeshayahu 40:1 a 26.
  2. Shabat Nachamu ocorre imediatamente depois de Tishá beAv e normalmente acompanha a leitura da Parashat Vaetchanan.
  3. As sete Haftarot de consolação são conhecidas como Shiva Denechemta e conduzem a comunidade de Tishá beAv até o período de Rosh Hashaná.
  4. A repetição de nachamu indica intensidade e continuidade na ordem de consolar.
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