Hoje é Quinta-feira, 16 jul. 2026 | 2 Av, 5786 Parashá da semana: Parashat Devarim Acendimento das velas (SP): 5h:20

O que é o Shabat Chazon?

O Shabat antes de Tishá beAv recebe o nome de Shabat Chazon, o Shabat da Visão. Esse nome vem da primeira palavra da Haftarah, retirada do primeiro capítulo do livro de Yeshayahu:

חֲזוֹן יְשַׁעְיָהוּ בֶן אָמוֹץ אֲשֶׁר חָזָה עַל יְהוּדָה וִירוּשָׁלָיִם

Chazon Yeshayahu ben Amotz, asher chazah al Yehudah viYerushalayim.

“Visão de Yeshayahu, filho de Amotz, que ele teve a respeito de Yehudah e Jerusalém.”

Yeshayahu 1:1

Essa Haftarah é a terceira das três leituras de advertência que antecedem Tishá beAv. Por meio do profeta, o Eterno mostra ao povo que a destruição de Jerusalém não aconteceu de repente. Antes de os muros caírem, a justiça, a fidelidade e os relacionamentos já estavam sendo enfraquecidos.

Diante disso, surge uma pergunta importante: o que uma comunidade precisa enxergar e corrigir antes que seus problemas se transformem em ruínas?

Uma visão que revela o que estava escondido

A palavra chazon significa visão. No entanto, a visão de Yeshayahu não era apenas uma imagem do futuro. Ela revelava a verdadeira condição espiritual e moral do povo.

A vida religiosa continuava funcionando. Havia sacrifícios, orações, celebrações e reuniões no Templo. Por fora, tudo parecia estar em ordem, mas O Eterno declarou:

“De que Me serve a multidão de vossos sacrifícios?”

Yeshayahu 1:11

Mais adiante, Ele diz:

“Quando estendeis as mãos, escondo de vós os Meus olhos. Ainda que multipliqueis as orações, não ouvirei, porque vossas mãos estão cheias de sangue.”

Yeshayahu 1:15

O problema não era a oração, o sacrifício ou a reunião comunitária. O problema era a distância entre aquilo que o povo praticava no espaço religioso e a forma como tratava as pessoas durante a vida cotidiana.

A Haftarah de Shabat Chazon ensina que uma comunidade não pode medir sua saúde apenas pela quantidade de reuniões, estudos, eventos ou participantes. É possível manter uma aparência de espiritualidade enquanto existem injustiças, mágoas, disputas e pessoas sendo ignoradas.

o Eterno não rejeitou o culto por ser culto. Ele rejeitou uma religiosidade que não produzia transformação.

Aprender a fazer o bem

Depois de apresentar uma forte repreensão, Yeshayahu mostra o caminho da restauração:

“Lavai vos, purificai vos, retirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos. Parai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão e defendei a causa da viúva.”

Yeshayahu 1:16 e 17

A expressão “aprendei a fazer o bem” mostra que o bem precisa ser aprendido e praticado. Boas intenções não são suficientes. Uma comunidade pode afirmar que ama, acolhe e serve, mas precisa demonstrar isso em suas decisões.

Buscar justiça significa não favorecer alguém apenas por amizade, influência ou posição. Defender o órfão e a viúva representa cuidar daqueles que possuem menos recursos e menos condições de fazer sua voz ser ouvida.

Na realidade atual, isso inclui perceber a família que está enfrentando dificuldades financeiras, a pessoa idosa que se sente esquecida, o jovem que está perdendo a conexão com a comunidade e a criança que necessita de mais atenção. Também significa tratar com seriedade uma reclamação justa, mesmo quando ela envolve alguém conhecido ou respeitado.

A visão de Yeshayahu não termina apenas apontando o erro. Ela mostra que existe um caminho de retorno, fundamentado em mudança de comportamento, justiça e responsabilidade. A própria Haftarah declara:

“Zion será redimida por meio da justiça, e os que retornarem a ela, por meio da retidão.”

Yeshayahu 1:27

Três momentos marcados pela palavra Eikhah

Shabat Chazon normalmente acompanha a leitura da Parashat Devarim. Nela, Moshe recorda os acontecimentos do deserto e pergunta:

אֵיכָה אֶשָּׂא לְבַדִּי טָרְחֲכֶם וּמַשַּׂאֲכֶם וְרִיבְכֶם

Eikhah essa levadi torchachem umasachem verivchem.

“Como poderei levar sozinho vosso peso, vossa carga e vossas disputas?”

Devarim 1:12

Na Haftarah, Yeshayahu também utiliza a palavra eikhah:

“Como se tornou infiel a cidade que era fiel, cheia de justiça!”

Yeshayahu 1:21

Depois, em Tishá beAv, o livro de Eikhah começa:

“Como está solitária a cidade que antes estava cheia de gente!”

Eikhah 1:1

Eikhah Rabbah 1:1 conecta essas três declarações. Moshe viu o povo em meio às suas reclamações e disputas. Yeshayahu viu Jerusalém perdendo sua justiça. Yirmeyahu viu a cidade depois da destruição. O Midrash apresenta uma sequência: primeiro aparecem os conflitos, depois a corrupção dos valores e, por fim, as ruínas.

Essa conexão mostra por que os problemas de relacionamento não devem ser tratados como assuntos pequenos. As ruínas visíveis muitas vezes começam em atitudes que pareciam sem importância, como reclamações constantes, disputas, falta de confiança e indiferença diante da dor do outro.

Quando a divisão destrói a comunidade

O Talmud pergunta por que o Segundo Templo foi destruído, mesmo em uma época na qual o povo estudava Torah, cumpria mitzvot e realizava atos de bondade. A resposta é:

מִפְּנֵי שֶׁהָיְתָה בּוֹ שִׂנְאַת חִנָּם

Mipnei shehaytah bo sinat chinam.

“Porque havia nele ódio sem causa.”

Talmud Bavli, Yoma 9b

Os sábios ensinam que o ódio sem causa possui um poder destrutivo comparável às transgressões mais graves. Isso mostra que a presença de atividades religiosas não garante a saúde espiritual de uma comunidade quando seus relacionamentos estão contaminados.

Sinat chinam nem sempre aparece como uma declaração aberta de ódio. Pode se manifestar em comentários que diminuem alguém, boatos, grupos fechados, julgamentos precipitados, disputas por reconhecimento e dificuldade para celebrar a conquista do outro.

Também pode aparecer quando uma pessoa comete um erro e passa a ser conhecida apenas por esse erro, quando alguém se afasta e ninguém procura saber o motivo ou quando diferenças de opinião se transformam em ataques pessoais.

Shabat Chazon convida a comunidade a enxergar essas situações antes que elas provoquem afastamentos maiores. A visão espiritual não consiste somente em perceber acontecimentos sobrenaturais. Também significa reconhecer o que está acontecendo diante de nossos olhos e ter coragem para corrigir.

Uma comunidade pode estar cheia e ainda possuir ruínas

Na atualidade, uma comunidade pode ter uma programação movimentada, bons professores, música, transmissões e muitos projetos. Tudo isso possui valor, mas não substitui o cuidado com as pessoas.

Uma sinagoga pode estar cheia durante as celebrações, mas alguém pode estar sentado no meio da multidão sentindo se completamente sozinho. Uma família pode participar de todas as atividades e ainda enfrentar uma crise dentro de casa sem que ninguém perceba. Um líder pode ensinar sobre humildade e, ao mesmo tempo, não conseguir ouvir uma crítica respeitosa.

Também existem comunidades que crescem em número, mas perdem a capacidade de acolher. Pessoas novas chegam, são cumprimentadas rapidamente e depois permanecem sem acompanhamento. Outras deixam de participar e sua ausência só é percebida muito tempo depois.

Essas situações não significam necessariamente que toda a comunidade esteja errada. Elas mostram que sempre existe algo a ser observado, avaliado e corrigido.

Shabat Chazon nos ensina a não esperar uma grande crise para começar a cuidar dos relacionamentos.

A visão do que pode ser reconstruído

Embora a Haftarah contenha palavras duras, Shabat Chazon não fala somente de destruição. A repreensão de Yeshayahu possui um objetivo: despertar teshuvah e impedir que o povo permaneça no mesmo caminho.

Rabbi Levi Yitzchak de Berditchev ensinou que, nesse Shabat, a alma recebe uma visão do futuro Beit Hamikdash. Essa interpretação chassídica compara a situação a um pai que prepara uma roupa especial para o filho. Depois de o filho estragar duas roupas, o pai prepara uma terceira, mas primeiro a mostra de longe para despertar nele o desejo de mudar seu comportamento e tornar-se preparado para recebê-la.

A mensagem é que não basta enxergar as ruínas. Também é necessário desenvolver uma visão daquilo que pode ser construído.

Uma comunidade precisa olhar para seus erros, mas não pode acreditar que está condenada a repeti-los. Relacionamentos podem ser restaurados, pessoas afastadas podem retornar, lideranças podem amadurecer e projetos podem ser reconstruídos sobre fundamentos melhores.

A visão da reconstrução não deve servir como desculpa para ignorar os problemas. Pelo contrário, ela deve nos motivar a mudar aquilo que impede essa reconstrução.

Uma reflexão para toda a comunidade

Shabat Chazon nos convida a observar a comunidade com sinceridade. Não apenas os prédios, a programação ou a quantidade de participantes, mas a qualidade dos relacionamentos, o cuidado com os mais vulneráveis e a coerência entre aquilo que ensinamos e aquilo que vivemos.

Precisamos perguntar se nossas palavras aproximam ou afastam, se sabemos ouvir antes de julgar, se tratamos todas as pessoas com a mesma dignidade e se nossas decisões refletem justiça. Também precisamos perceber quem está sofrendo silenciosamente, quem deixou de participar, quem necessita de ajuda e quais conflitos estão sendo ignorados.

A destruição de Jerusalém nos ensina que nenhuma estrutura permanece forte quando a justiça desaparece e os relacionamentos são desprezados. Ao mesmo tempo, a mensagem dos profetas mostra que a mudança ainda é possível.

Chazon significa visão. Neste Shabat, somos chamados a enxergar duas coisas: as rachaduras que precisam ser reparadas e a comunidade que podemos construir quando escolhemos a teshuvah, a justiça e o cuidado mútuo.

Que nossa kehilá não espere os muros caírem para reconhecer seus problemas. Que tenhamos humildade para corrigir nossos caminhos, coragem para tratar nossas feridas e sabedoria para construir um lugar onde a Torah seja vista não apenas em nossas palavras, mas também na forma como tratamos uns aos outros.

Assim, a visão de Yeshayahu deixará de ser apenas uma advertência sobre aquilo que foi destruído e se tornará um chamado para aquilo que ainda pode ser restaurado.

Notas de leitura

  1. Shabat Chazon significa “Shabat da Visão” e recebe esse nome por causa da palavra chazon, que inicia a Haftarah de Yeshayahu 1.
  2. Essa Haftarah é a última das três leituras de advertência que antecedem Tishá beAv.
  3. A ligação entre os três usos da palavra eikhah aparece em Eikhah Rabbah 1:1, conectando Moshe, Yeshayahu e Yirmeyahu.
  4. A visão do futuro Beit Hamikdash em Shabat Chazon pertence ao ensinamento chassídico atribuído a Rabbi Levi Yitzchak de Berditchev. Ela é uma interpretação espiritual adicional e não o sentido simples do nome do Shabat.
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