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Mês de AV - Costumes e Observações

O mês de Av ocupa um lugar singular no calendário judaico. Seus primeiros dias são marcados pela memória da destruição, pelo luto por Jerusalém e pela redução das manifestações de alegria. No entanto, o mesmo mês também contém Shabat Nachamu, o início das sete Haftarot de consolação, e Tu beAv, apresentado pela Mishná como um dos dias mais alegres de Israel.

Av não é apenas um mês triste. Ele conduz a comunidade por um caminho que começa na consciência da perda, passa pela teshuvah e termina apontando para a reconstrução. Seus costumes não existem para produzir tristeza permanente, mas para nos ensinar a lembrar, avaliar nossos caminhos e transformar a memória em atitudes.

Diante disso, surge uma pergunta importante: como observar os costumes de Av sem transformar o luto em uma rotina vazia, desconectada da mudança que ele deveria produzir?

Quando entra Av, diminuímos a alegria

A Mishná apresenta uma das declarações mais conhecidas sobre esse mês:

מִשֶּׁנִּכְנַס אָב מְמַעֲטִין בְּשִׂמְחָה

Mishenichnas Av memaatin besimchah.

“Quando entra Av, diminuímos a alegria.”

Mishná Taanit 4:6

O texto não declara que toda alegria deve desaparecer. A orientação é reduzir manifestações de celebração durante o período que conduz a Tishá beAv. O Shulchan Aruch relaciona essa diminuição a atividades como construções realizadas apenas por prazer, grandes celebrações e determinados negócios ligados à alegria.

Diminuir a alegria não significa viver em desespero. Significa abrir espaço para a memória. Em uma rotina cheia de compromissos, entretenimento e distrações, o mês de Av interrompe o ritmo normal para que a comunidade se lembre de Jerusalém e avalie as razões espirituais e sociais que conduziram à destruição.

O luto judaico não se limita a recordar o que inimigos fizeram contra Israel. Ele também nos leva a examinar nossas próprias atitudes. Yeshayahu repreendeu uma sociedade que mantinha sacrifícios e orações, mas permitia injustiça, violência e abandono dos mais vulneráveis, conforme Yeshayahu 1:11 a 17. O Talmud, por sua vez, relaciona a destruição do Segundo Templo ao sinat chinam, o ódio sem causa, mesmo em uma geração que estudava Torah e praticava mitzvot, conforme Yoma 9b.

Por isso, reduzir a alegria também significa reduzir o barulho externo para escutar o que precisa ser corrigido dentro de nós.

Os Nove Dias

O período entre Rosh Chodesh Av e Tishá beAv é conhecido como os Nove Dias. Durante esse tempo, o nível de luto se torna mais intenso. Em muitas comunidades, evita se comer carne e beber vinho, usar roupas novas ou recém lavadas, lavar roupas, ouvir música, realizar festas, nadar ou tomar banho apenas por prazer. Também se costuma adiar reformas e construções destinadas somente ao conforto ou à decoração.

A abstinência de carne e vinho possui uma ligação especial com o Beit Hamikdash. A carne estava relacionada aos korbanot, e o vinho era utilizado nas libações do serviço do Templo. Ao retirar temporariamente esses alimentos da rotina, a pessoa recorda que o serviço realizado em Jerusalém já não pode ser cumprido em sua forma completa.

Esses costumes não possuem o objetivo de transformar a alimentação ou o cuidado pessoal em algo negativo. Eles retiram, por um período limitado, elementos associados ao prazer e à celebração. A mudança na rotina ajuda a tornar a memória concreta.

Quando alguém deixa de comer um alimento habitual, evita uma compra ou altera sua forma de se vestir, o luto deixa de ser apenas uma ideia estudada em um livro. Ele passa a fazer parte da experiência diária.

Diferenças entre os costumes

Nem todas as comunidades observam os costumes de Av exatamente da mesma maneira. Entre muitas comunidades ashkenazitas, várias restrições são observadas durante todos os Nove Dias, e alguns costumes de luto, como a interrupção de cortes de cabelo, começam ainda no dia 17 de Tamuz.

Entre comunidades sefaraditas, várias práticas mais rigorosas, especialmente as relacionadas a roupas lavadas, cortes de cabelo e banho por prazer, costumam concentrar se na semana em que Tishá beAv ocorre. Muitas tradições sefaraditas, porém, já evitam carne e vinho depois de Rosh Chodesh Av. Existem ainda diferenças entre famílias e comunidades dentro do próprio mundo sefaradita.

Essas diferenças não devem se transformar em motivo de julgamento. Um costume mais rigoroso não torna automaticamente uma pessoa mais espiritual, e uma prática diferente não significa falta de compromisso.

O princípio de minhag possui grande importância na tradição judaica. Cada pessoa deve conhecer os costumes recebidos de sua família e da comunidade à qual pertence. Questões práticas, especialmente aquelas relacionadas à saúde, trabalho, gravidez, cuidado com crianças ou necessidades especiais, devem ser apresentadas a uma autoridade rabínica.

Shabat não perde sua dignidade

Mesmo durante os Nove Dias, o Shabat continua sendo recebido com honra. Não se realizam demonstrações públicas de luto no Shabat. Em muitas comunidades, usam se roupas adequadas para o dia, e é permitido comer carne e beber vinho nas refeições de Shabat.

Essa prática ensina que o luto possui limites. A memória da destruição é profunda, mas não pode cancelar a santidade e a alegria própria do Shabat.

O Shabat que antecede Tishá beAv é chamado Shabat Chazon, o Shabat da Visão, por causa da Haftarah que começa com as palavras “Visão de Yeshayahu”. A leitura mostra a condição espiritual de Jerusalém antes da destruição e chama o povo a abandonar a injustiça, purificar suas atitudes e aprender a fazer o bem.

O objetivo de Shabat Chazon não é apenas mostrar as ruínas que se aproximavam. Ele nos ajuda a enxergar as rachaduras que surgem antes da queda. Conflitos ignorados, orgulho, injustiça e indiferença podem enfraquecer uma comunidade muito antes que os problemas se tornem visíveis.

Tishá beAv: o centro do luto

A Mishná registra cinco acontecimentos relacionados ao dia 9 de Av: foi decretado que a geração do deserto não entraria na Terra de Israel, o Primeiro e o Segundo Templos foram destruídos, Beitar foi conquistada e Jerusalém foi arada depois da revolta contra Roma.

Tishá beAv é observado com jejum desde o pôr do sol até a noite do dia seguinte. Também se evita lavar o corpo por prazer, aplicar óleos ou perfumes por prazer, usar calçados de couro e manter intimidade conjugal. O estudo comum da Torah é limitado porque suas palavras alegram o coração, mas são permitidos textos relacionados ao luto, à destruição, a Iyov, Eikhah e às partes difíceis de Yirmeyahu.

Na noite de Tishá beAv, lê se o livro de Eikhah, que descreve Jerusalém solitária, ferida e humilhada. Também são recitadas kinot, composições de lamento que recordam a destruição do Templo e outras tragédias vividas pelo povo judeu.

Contudo, Tishá beAv não é apenas um dia para aprender datas históricas. Ele nos ensina que uma sociedade pode perder suas estruturas quando perde seus valores. Jerusalém não caiu apenas quando seus muros foram invadidos. A queda começou quando a justiça, a unidade e o cuidado com o próximo deixaram de ocupar o centro da vida nacional.

O luto deve produzir mudança

O Talmud ensina:

כָּל הַמִּתְאַבֵּל עַל יְרוּשָׁלַיִם זוֹכֶה וְרוֹאֶה בְּשִׂמְחָתָהּ

Kol hamitabel al Yerushalayim zocheh veroeh besimchatah.

“Todo aquele que se lamenta por Jerusalém merece ver sua alegria.”

Talmud Bavli, Taanit 30b

O mérito não está apenas em demonstrar tristeza. O verdadeiro luto cria uma ligação com Jerusalém e desperta o desejo de participar de sua restauração.

Se o Templo foi destruído em uma realidade marcada por ódio, injustiça e divisão, o luto precisa conduzir a atitudes contrárias. Recordar Jerusalém deve nos tornar mais cuidadosos com nossas palavras, mais atentos às necessidades dos outros e mais comprometidos com a paz dentro de casa e da comunidade.

Não faz sentido evitar carne e vinho durante alguns dias, mas continuar alimentando ressentimentos. Não é coerente sentar-se no chão para lamentar Jerusalém e, depois, levantar-se sem disposição para reparar um relacionamento. Os costumes alcançam seu propósito quando produzem teshuvah.

Do luto para a consolação

O primeiro Shabat depois de Tishá beAv recebe o nome de Shabat Nachamu, por causa das palavras de Yeshayahu:

נַחֲמוּ נַחֲמוּ עַמִּי יֹאמַר אֱלֹהֵיכֶם

Nachamu nachamu ami yomar Eloheichem.

“Consolem, consolem Meu povo, diz vosso Deus.”

Yeshayahu 40:1

Esse Shabat inicia as sete Haftarot de consolação, lidas até o período de Rosh Hashaná. O calendário não permite que a comunidade permaneça presa à destruição. Depois de reconhecer a perda, é necessário começar a reconstruir.

A consolação não apaga o que aconteceu. Ela anuncia que a ruína não possui a palavra final. O povo continua sendo chamado de “Meu povo”, e Jerusalém continua sendo parte da promessa.

Essa passagem do luto para a consolação também deve aparecer na vida comunitária. Depois de reconhecer um erro, é necessário corrigi-lo. Depois de pedir perdão, é preciso mudar a atitude. Depois de perceber uma pessoa afastada, é necessário criar um caminho de retorno.

Tu beAv: a alegria retorna

No dia 15 de Av, a atmosfera do mês muda novamente. Rabban Shimon ben Gamliel declarou:

“Não houve dias tão alegres para Israel como o dia quinze de Av e Yom Kippur.”

Mishná Taanit 4:8

A Mishná relata que as jovens de Jerusalém saíam com roupas brancas emprestadas para que ninguém fosse envergonhado por não possuir uma roupa própria. Elas dançavam nos vinhedos e chamavam a atenção para o caráter, a família e o temor do Eterno, em vez de valorizar somente a beleza exterior.

O Talmud relaciona Tu beAv a diversos acontecimentos: a permissão para casamentos entre diferentes tribos, a reintegração da tribo de Binyamin, o fim das mortes da geração do deserto, a retirada de barreiras que impediam a peregrinação a Jerusalém, o sepultamento dos mortos de Beitar e a conclusão do corte de madeira para o altar.

Muitas dessas explicações possuem algo em comum: barreiras foram retiradas, ciclos de morte chegaram ao fim e relacionamentos foram restaurados.

É significativo que essa celebração aconteça poucos dias depois de Tishá beAv. O mês que recorda a destruição também ensina que o luto não deve durar para sempre. A memória precisa abrir espaço para a esperança, para os reencontros e para a reconstrução.

Uma reflexão para toda a comunidade

O mês de Av nos ensina a diminuir o ritmo para observar aquilo que normalmente evitamos enxergar. Ele nos pergunta como estão nossos relacionamentos, se nossas palavras estão construindo ou destruindo e se nossa prática religiosa está produzindo justiça, compaixão e responsabilidade.

Os costumes dos Nove Dias não devem ser tratados como uma lista mecânica de proibições. Eles são sinais externos de um processo interior. A ausência da carne, do vinho, da música e das celebrações nos recorda que algo está incompleto. Jerusalém ainda espera restauração, e nossas próprias comunidades também possuem áreas que precisam ser reparadas.

Ao mesmo tempo, Av não termina na tristeza. Shabat Nachamu anuncia consolação, e Tu beAv mostra a alegria retornando. O caminho do mês ensina que a memória da destruição deve produzir uma comunidade mais unida, sensível e preparada para reconstruir.

Que saibamos observar os costumes de Av com equilíbrio e propósito. Que nosso luto não se limite às roupas que deixamos de usar ou aos alimentos que deixamos de comer, mas alcance nossa maneira de falar, julgar, perdoar e cuidar.

Quando o luto nos torna mais conscientes, a memória deixa de ser apenas uma lembrança do passado e se transforma em uma preparação para o futuro.

Notas de leitura

  1. Os costumes dos Nove Dias apresentam diferenças entre comunidades ashkenazitas, sefaraditas, orientais e iemenitas. A prática familiar e comunitária deve ser preservada.
  2. Questões relacionadas à saúde, alimentação, higiene, gravidez, amamentação, idade avançada, uso de medicamentos e condições médicas precisam de orientação individual.
  3. Quando Tishá beAv ocorre no Shabat ou é adiado para o domingo, alguns detalhes das restrições da semana e do período posterior ao jejum podem mudar.
  4. O termo Menachem Av é utilizado em algumas comunidades como um nome ampliado do mês. Menachem significa consolador, destacando que a consolação já está presente dentro do próprio período de luto.
  5. Este artigo apresenta uma visão geral dos costumes. Ele não substitui uma orientação haláchica específica.

Fontes principais

Mishná Taanit 4:6

Mishná Taanit 4:8

Talmud Bavli, Taanit 29a e 29b

Talmud Bavli, Taanit 30b e 31a

Talmud Bavli, Yoma 9b

Yeshayahu 1:1 a 27

Yeshayahu 40:1 a 26

Eikhah

Shulchan Aruch, Orach Chaim 551

Shulchan Aruch, Orach Chaim 554

Shulchan Aruch, Orach Chaim 558

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