Hoje é Segunda-feira, 5 out. 2026 | 24 Tishrei, 5787 • Parashá da semana: Parashat Bereshit • Acendimento das velas (SP): 5h:50

Lulav e as Quatro Espécies:
o Que São, Como Usar e o Que Ensinam

A Torá resolve a mitsvá (mandamento) do lulav em uma única frase: “No primeiro dia tomareis para vós fruto de árvore formosa, ramos de palmeiras, ramos de árvore frondosa e salgueiros de ribeiro, e vos alegrareis perante o Eterno, vosso D’us, por sete dias” (Vayikra/Levítico 23:40). O verso não diz quais árvores são essas. Quem identificou cada uma foi a tradição oral, e o resultado é o conjunto que aparece em toda sinagoga durante Sucot, a Festa das Cabanas: um ramo de palmeira, três de murta, dois de salgueiro e uma cidra.

Em hebraico, o conjunto se chama Arba Minim, as quatro espécies, e o nome do maior deles, o lulav, acabou designando a mitsvá inteira. É uma das poucas ordens da Torá cumpridas com as mãos cheias: cheiro, textura, cor e movimento entram juntos no mesmo gesto.

As quatro espécies, uma por uma

  • Lulav (ramo de palmeira): o broto central, ainda fechado, da tamareira, o “kapot temarim” do verso. O Sefer HaChinuch, obra clássica que explica os 613 mandamentos, observa que a palavra “kapot” vem escrita sem a letra vav, o que indica que se toma um só lulav, nunca dois ou mais.
  • Hadassim (murtas): o “ramo de árvore frondosa”, cuja folhagem cobre o galho. Usam-se três ramos.
  • Aravot (salgueiros): os “salgueiros de ribeiro”, que crescem à beira da água. Usam-se dois ramos.
  • Etrog (cidra): o “fruto de árvore formosa” (hadar). A tradição identifica essa árvore com a cidreira (Talmud, Sukkah 35a), e Ben Azai lê “hadar” como a árvore que “habita” (dar) em seu galho de um ano ao outro (Vayikra Rabá, cap. 30), o que combina com uma cidreira que dá fruto o ano inteiro.

Como se monta e se usa

Cada pessoa toma um lulav, dois ramos de salgueiro e três de murta, amarrados juntos, e o etrog fica solto, na outra mão. O Shulchan Aruch (código da lei judaica prática) manda segurar o feixe na mão direita, com as pontas para cima, e o etrog na esquerda (Orach Chayim 651:1-2).

As medidas mínimas também vêm do Shulchan Aruch: o lulav precisa de quatro tefachim (palmos, em torno de 32 cm, com cada tefach equivalendo a cerca de 8 cm), e a murta e o salgueiro, de três tefachim (cerca de 24 cm), com a ponta do lulav passando um palmo acima da murta (650:1). Antes de comprar o conjunto, vale conferir medidas e qualidade com a liderança da sinagoga.

Antes de tomar o conjunto, diz-se a bênção sobre a tomada do lulav (al netilat lulav) e, no primeiro dia, a Shehecheyanu, bênção de gratidão por chegar àquele momento (651:5). Em seguida, o conjunto é sacudido para os quatro lados, para cima e para baixo. O Talmud (Sukkah 37b) guarda duas explicações para o gesto. Rabi Yochanan ensina que se sacode para frente e para trás em honra d’Aquele a quem pertencem as quatro direções, e para cima e para baixo em honra d’Aquele a quem pertencem o céu e a terra. Na tradição de Eretz Yisrael (a Terra de Israel), ensinava-se que os movimentos horizontais pedem o fim dos ventos nocivos, e os verticais, o fim dos orvalhos e das chuvas prejudiciais. A mesma ideia atravessa a festa inteira: Sucot é tempo de pedir a água do ano, e as quatro espécies, todas dependentes dela, falam isso com o corpo.

Durante o Halel, os Salmos de louvor que incluem o pedido “Eterno, salva-nos” (Tehilim 118:25), é costume manter o conjunto na mão.

Quando se toma

De dia, nunca à noite, a partir do primeiro dia de Sucot, 15 de Tishrei (Vayikra Rabá, cap. 30). Pela Torá, fora do Templo a ordem vale só no primeiro dia, enquanto no Templo valia os sete dias. Depois da destruição, Rabban Yochanan ben Zakai determinou que o lulav fosse tomado nos sete dias em todo lugar, em memória do Templo (Mishná Sukkah 3:12; Shulchan Aruch, Orach Chayim 658:1). Em 2026, os sete dias foram de 26 de setembro a 2 de outubro. Mais sobre a festa no artigo Sucot, a Festa das Cabanas.

O que cada espécie ensina

Quatro tipos de pessoa. O Midrash Vayikra Rabá (30:12) lê as quatro espécies como quatro tipos de gente. O etrog tem gosto e cheiro, como quem tem Torá e boas ações. A palmeira tem gosto, mas não tem cheiro, como quem tem Torá sem boas ações. A murta tem cheiro, mas não tem gosto, como quem tem boas ações sem Torá. O salgueiro não tem gosto nem cheiro, como quem não tem uma coisa nem a outra. O Midrash conclui que o Eterno manda atar todos num só feixe, para que um expie o outro. Nenhuma das quatro pode ser deixada de fora, porque sem uma delas a mitsvá não se cumpre.

O corpo inteiro. No mesmo capítulo (30:14), Rabi Mani aplica ao conjunto o verso “todos os meus ossos dirão: Eterno, quem é como Tu?” (Tehilim 35:10). A coluna do lulav lembra a coluna do ser humano, a murta lembra o olho, o salgueiro lembra a boca e o etrog lembra o coração. Entre os membros do corpo, diz o Midrash, nenhum é maior do que esses, e juntos equivalem ao corpo todo. Sacudir o conjunto é oferecer a Deus os olhos, a fala, o porte e o coração.

A vitória depois do julgamento. Ainda no capítulo 30, o Midrash compara Rosh Hashaná a um processo em que ninguém sabe quem venceu. Quando Israel sai da presença do Eterno com lulavim e etrogim nas mãos, sabe-se quem venceu. E de Yom Kipur a Sucot, cada um fica ocupado com uma mitsvá, este com sua sucá, aquele com seu lulav, e o Eterno diz: “O que passou, passou; daqui começamos uma conta nova”. É por isso que a alegria de Sucot vem logo depois da seriedade dos dias de julgamento.

E quem não é judeu?

A ordem do lulav foi dada a Israel, e perguntas práticas sobre quem toma o conjunto e com qual bênção cabem à liderança da sinagoga. O que o texto bíblico mostra é que Sucot reúne mais gente do que Israel. O profeta Zacarias descreve o dia em que todos os que restarem de todas as nações “subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Eterno dos Exércitos, e para celebrar a Festa das Cabanas” (Zacarias 14:16). Quem se aproxima da Torá vindo das nações encontra na festa um lugar reservado.

Fechando o círculo

A mesma imagem aparece na Brit Chadashá (Novo Testamento), em Apocalipse 7:9: “uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”, em pé diante do trono, “e com palmas nas mãos”. É a cena de Zacarias 14 vista de dentro: gente de todos os povos reunida, com ramos de palmeira na mão, no lugar exato onde a Torá pediu o lulav.

Quem segura o conjunto pela primeira vez sente que a mitsvá pede o corpo inteiro: as duas mãos, o olhar, a boca e o coração. Aprender a montar o lulav e entender o que cada espécie guarda fica mais fácil acompanhado.

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