Hoje é Sexta-feira, 17 jul. 2026 | 3 Av, 5786 Parashá da semana: Parashat Devarim Acendimento das velas (SP): 5h:20


As filhas de Tzelofchad e a coragem de
apresentar uma causa justa

Machlah, Noa, Choglah, Milkah e Tirtzah eram as cinco filhas de Tzelofchad, um homem da tribo de Menashê que morreu durante a caminhada de Israel pelo deserto sem deixar filhos homens. Quando chegou o momento de organizar a divisão da Terra de Israel entre as famílias, elas perceberam que o nome de seu pai e sua parte na herança poderiam desaparecer. Por isso, aproximaram se de Moshe, do sacerdote Elazar, dos líderes e de toda a comunidade para apresentar sua causa, conforme relata Bamidbar 27:1 a 4.

A história dessas mulheres nos leva a uma pergunta importante: o que fez com que cinco mulheres, dentro de uma estrutura tribal conduzida principalmente por homens, fossem ouvidas por Moshe e tivessem sua causa confirmada pelo próprio Eterno?

Elas não pediram um privilégio

As filhas de Tzelofchad não chegaram diante da liderança apenas reclamando que estavam sendo prejudicadas. Elas apresentaram uma questão objetiva, fundamentada na continuidade da família e na promessa da Terra.

Elas disseram:

“Por que o nome de nosso pai seria retirado do meio de sua família pelo fato de ele não ter tido um filho? Dá nos uma propriedade entre os irmãos de nosso pai.”

Bamidbar 27:4

A preocupação delas não estava limitada ao valor material da terra. Na sociedade de Israel, a herança representava identidade, memória familiar, pertencimento à tribo e participação na promessa dada por Eterno. Sem uma parte na Terra, o nome de Tzelofchad deixaria de estar representado entre as famílias de Menashê.

Elas também deixaram claro que seu pai não havia participado da rebelião de Korach. Ele havia morrido por seu próprio pecado, mas não fazia parte daquele movimento que se levantou contra Moshe e Aharon. Com isso, as filhas demonstraram que conheciam a história da família, entendiam as consequências das decisões do pai e sabiam separar a responsabilidade pessoal dele da questão que estavam apresentando.

Elas não tentaram esconder o passado. Também não permitiram que o erro de seu pai apagasse o futuro de toda a família.

Uma reivindicação fundamentada na própria Torah

As cinco irmãs não se levantaram contra a Torah. Elas recorreram à Torah.

O Talmud explica que elas escolheram o momento certo para apresentar sua questão. Segundo Bava Batra 119b, Moshe estava ensinando sobre o yibum, o casamento realizado para preservar o nome de um homem que morresse sem deixar descendência.

As filhas de Tzelofchad perceberam uma questão importante. Se elas eram consideradas descendentes suficientes para impedir que sua mãe entrasse em um casamento de yibum, então também deveriam ser consideradas descendentes para receber a herança do pai.

O argumento delas poderia ser resumido assim: se somos consideradas como filhos para preservar a família, devemos receber a herança como descendentes. Caso não sejamos consideradas descendentes, então nossa mãe deveria estar sujeita ao yibum.

O Talmud não apresenta essas mulheres como pessoas que falaram apenas com emoção. Elas estudaram, observaram a situação e construíram um argumento coerente. Elas conheciam os princípios da Torah e mostraram que havia uma questão que precisava ser esclarecida.

Moshe não ignorou a pergunta

A atitude de Moshe também merece atenção. Ele poderia ter rejeitado o pedido dizendo que aquela questão nunca havia sido apresentada. Poderia ter considerado o assunto pouco importante ou decidido com base apenas nos costumes conhecidos naquele momento.

Em vez disso, a Torah declara:

“Moshe levou a causa delas diante de Eterno.”

Bamidbar 27:5

Um verdadeiro líder não precisa fingir que possui todas as respostas. Moshe reconheceu que a pergunta era legítima e levou o caso diante de Eterno.

A resposta divina foi direta:

כֵּן בְּנוֹת צְלָפְחָד דֹּבְרֹת

Ken benot Tzelofchad doverot.

“As filhas de Tzelofchad falam corretamente.”

Bamidbar 27:7

Eterno ordenou que elas recebessem a propriedade que pertenceria ao pai. Em seguida, estabeleceu uma regra para todo Israel: quando um homem morresse sem deixar filho, sua herança seria transferida para sua filha. Depois disso, a Torah apresenta a ordem dos demais parentes que poderiam receber a herança.

A causa apresentada por cinco irmãs tornou se uma orientação para todas as famílias de Israel. O Talmud ensina que a seção sobre a herança poderia ter sido transmitida diretamente por Moshe, mas as filhas de Tzelofchad tiveram o mérito de que essa parte da Torah fosse revelada por meio da história delas.

Sábias, estudiosas e justas

Bava Batra 119b descreve as filhas de Tzelofchad com três características:

חַכְמָנִיּוֹת הֵן, דַּרְשָׁנִיּוֹת הֵן, צִדְקָנִיּוֹת הֵן

Chachmaniot hen, darshaniot hen, tzidkaniot hen.

“Elas eram sábias, intérpretes da Torah e justas.”

Elas eram sábias porque souberam identificar o momento apropriado para falar. Não apresentaram sua causa de qualquer maneira. Esperaram o momento em que Moshe ensinava um assunto relacionado ao problema delas.

Elas eram intérpretes porque conseguiram relacionar diferentes princípios da Torah. Não estavam apenas repetindo algo que haviam ouvido. Elas compreenderam como os mandamentos se conectavam e perceberam que a mesma lógica deveria ser aplicada à situação de sua família.

Elas eram justas porque suas escolhas não eram guiadas somente por interesses imediatos. O Talmud relata que elas esperaram por homens adequados para se casar, em vez de tomar decisões apressadas apenas por pressão ou conveniência. A lição não está simplesmente na idade em que se casaram, mas na capacidade de escolher com responsabilidade e discernimento.

Essas três características formam um modelo importante: sabedoria para escolher o momento, conhecimento para construir uma argumentação e justiça para viver de acordo com aquilo que se defende.

Uma coragem que caminhava junto com a responsabilidade

A história não termina em Bamidbar 27. Mais tarde, os líderes da tribo de Menashê apresentaram outra preocupação. Se as filhas de Tzelofchad se casassem com homens de outras tribos, a terra herdada poderia passar para outra tribo.

Eterno reconheceu que a preocupação dos líderes também era legítima. As filhas receberam liberdade para escolher seus maridos, desde que se casassem dentro da tribo de seu pai. Elas aceitaram essa orientação e se casaram dentro das famílias de Menashê, preservando a herança familiar e tribal, conforme Bamidbar 36:5 a 12.

Isso mostra que a coragem delas não era uma forma de individualismo. Elas defenderam seus direitos, mas também aceitaram responsabilidades. Queriam ser reconhecidas dentro da comunidade, e não viver separadas dela.

A verdadeira justiça não precisa destruir a vida comunitária. Ela procura proteger a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, preservar aquilo que é valioso para toda a comunidade.

Cinco mulheres que agiram como uma só

A Torah registra o nome de cada uma delas. Elas não são apresentadas apenas como um grupo anônimo de mulheres.

Machlah, Noa, Choglah, Milkah e Tirtzah.

Em Bamidbar 27, os nomes aparecem em uma ordem. Em Bamidbar 36, a ordem é modificada. O Sifrei Bamidbar explica que essa mudança mostra que todas possuíam igual importância e dignidade. Nenhuma delas precisava ser diminuída para que outra fosse reconhecida.

Elas também não aparecem competindo entre si. As cinco apresentam a mesma causa. Uma não tenta receber mais do que as outras. Uma não usa a dificuldade da família para construir sua própria posição.

Elas entenderam que aquela causa era maior do que qualquer interesse individual.

Muitas mudanças importantes deixam de acontecer porque as pessoas que enfrentam o mesmo problema começam a disputar espaço entre si. As filhas de Tzelofchad mostram que a união não apaga a individualidade. Cada uma tinha seu nome, mas todas carregavam o mesmo propósito.

O exemplo delas em nossos dias

A realidade atual é diferente da organização tribal encontrada no livro de Bamidbar, mas os princípios dessa história continuam presentes em situações comuns.

Uma mulher pode perceber que decisões importantes sobre a família estão sendo tomadas sem que sua opinião seja considerada. Em vez de guardar ressentimento ou iniciar uma discussão no momento errado, ela pode organizar seus pensamentos, conversar com clareza e explicar por que sua participação é importante.

No ambiente profissional, uma mulher pode perceber que seu trabalho não está recebendo o mesmo reconhecimento dado a outras pessoas. O exemplo das filhas de Tzelofchad ensina que ela pode reunir informações, apresentar resultados concretos e procurar os responsáveis pela decisão. Firmeza não significa agressividade.

Dentro de uma comunidade, uma mulher pode identificar uma necessidade que ainda não foi percebida pelos líderes. Pode ser uma dificuldade enfrentada pelas crianças, pelas famílias, pelas idosas ou por mulheres que necessitam de apoio. Em vez de apenas apontar erros, ela pode estudar o assunto e apresentar uma proposta possível.

Também existem momentos em que uma mulher precisa defender a memória de sua família. Talvez exista um passado difícil, uma perda ou um erro cometido por alguém próximo. As filhas de Tzelofchad ensinam que o passado não deve ser escondido, mas também não precisa determinar todo o futuro.

Elas reconheceram que seu pai havia errado, mas não aceitaram que o erro dele apagasse o nome, a dignidade e a esperança das filhas.

Uma reflexão para as mulheres

As filhas de Tzelofchad não precisaram abandonar sua identidade para serem ouvidas. Elas não usaram desrespeito, revolta ou acusações. Aproximaram se da liderança, apresentaram uma pergunta legítima e confiaram que Eterno julgaria sua causa.

Mulher, sua voz não precisa ser agressiva para ser firme. Você não precisa gritar para demonstrar convicção. Também não precisa permanecer em silêncio quando existe uma questão justa que deve ser apresentada.

Antes de falar, estude. Antes de reagir, procure compreender. Antes de enfrentar alguém, pergunte a si mesma qual é o verdadeiro propósito de sua causa.

Existem momentos em que o silêncio representa sabedoria. Entretanto, existem outros momentos em que permanecer em silêncio permite que uma herança, uma oportunidade ou uma história desapareça.

Talvez você veja algo que outras pessoas ainda não perceberam. Talvez exista uma questão dentro de sua família, de seu trabalho ou de sua comunidade que precisa ser apresentada com equilíbrio. Talvez Eterno tenha colocado em você sensibilidade para perceber uma necessidade que foi ignorada durante muito tempo.

Não despreze essa percepção. Prepare seu coração, conheça os princípios da Torah e procure o momento adequado para falar.

As filhas de Tzelofchad não buscaram fama. Elas buscaram preservar uma herança. Por causa de sua coragem, seu conhecimento e sua unidade, o próprio Eterno declarou:

“As filhas de Tzelofchad falam corretamente.”

Que toda mulher compreenda que sua voz pode se tornar um instrumento de justiça quando suas palavras nascem da sabedoria, da verdade e do temor de Eterno.


Notas de leitura

  1. A grafia dos nomes pode variar nas traduções. Machlah também aparece como Mahlah. Choglah pode aparecer como Hoglah. Milkah pode aparecer como Milcah. Tirtzah também pode ser escrita como Tirzah.
  2. A Torah não identifica diretamente qual foi o pecado individual de Tzelofchad. Existem diferentes opiniões entre os sábios sobre essa questão. O ponto principal do relato é que ele não participou da rebelião organizada por Korach.
  3. A declaração talmúdica sobre a idade em que as irmãs se casaram pertence à interpretação rabínica de Bava Batra 119b. Essa informação não aparece diretamente no relato da Torah.
  4. A orientação para que as herdeiras se casassem dentro da própria tribo estava relacionada à preservação da divisão territorial entre as tribos durante aquele período. O tema é discutido posteriormente em Bava Batra 120a.
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