Hoje é Quarta-feira, 4 Mar. 2026 | 15 Adar, 5786 Parashá da semana: Parashat Ki Tisa Acendimento das velas (SP): 6h:12

Temperamento, Circunstâncias e o Julgamento Divino

Nestes dias que antecedem Rosh Hashaná e Yom Kipur, empregamos forças físicas e
intelectuais em diversas práticas: kavaná (intenção nas orações), segulot (costumes
espirituais), recitação de Tehilim (Salmos), jejuns e outros preparativos. Mas não podemos
esquecer a razão de todo esse empenho: em algum momento do nosso ano, mês, semana,
dia ou até mesmo de uma hora, desviamos nossos pés dos mandamentos de Hashem. É
por isso que tanto falamos de teshuvá — o retorno.

Esse esforço é o reconhecimento de que erramos. Porém, o estudo do Mussar nos ensina a ética da Torá, indicando como colocar nossos pés novamente na trilha correta, para que
possamos comparecer diante do Criador com mais pureza e retidão.

Rav Yisrael Salanter, fundador do movimento do Mussar, ensina que cada pessoa é julgada de forma única, levando em conta dois fatores:

Seu temperamento (teva) – a natureza com que nasceu, como ser calmo ou colérico,
generoso ou retraído.

Suas circunstâncias (mikrim) – as condições externas que moldam suas escolhas: riqueza
ou pobreza, educação recebida, ambiente em que vive, pressões externas e até mesmo a
geração em que nasceu.

Hashem não julga duas pessoas de modo idêntico. Um homem naturalmente paciente não tem o mesmo mérito que outro de temperamento explosivo que luta para se conter. O julgamento divino é, portanto, individualizado e proporcional à força e às condições de cada um (lefi coach).

“Não julgue o teu próximo até estar no lugar dele.” (Pirkei Avot 2:5)

Exemplos do Julgamento Individualizado


Tzedaká: um pobre que não contribui é considerado menos culpado que um rico que se
recusa a ajudar. Por outro lado, um estudioso pobre que negligencia a Torá será mais
responsabilizado do que um rico sem formação, ainda que este tenha tido mais facilidade
para contratar mestres.

Humor e estado mental: se a transgressão ocorreu em tranquilidade ou agitação, em lucidez ou confusão mental, tudo isso é levado em consideração.

O Talmud (Sanhedrin 91b) ilustra essa ideia com a parábola do cego e do coxo. Cada um
sozinho parecia incapaz de roubar os frutos do pomar, mas juntos o fizeram. Assim
também, no julgamento final, corpo e alma serão reunidos e julgados como uma só
entidade.

Fontes Judaicas que Reforçam Esse Princípio

Salmos 103:14 – “Pois Ele conhece a nossa natureza, lembra-se de que somos pó.”

Midrash Tanchuma, Vayera 22 – Avraham foi julgado em um nível mais alto por sua
grandeza espiritual.

Avodá Zará 3a:2 – Até mesmo um gentio que estuda Torá é elevado ao nível de um Sumo
Sacerdote.

Essas fontes revelam que o julgamento divino leva em conta tanto a fragilidade humana
quanto o nível espiritual que se espera de cada um.

Eco na Brit Chadashá

O apóstolo Shaul reafirma essa verdade:

Romanos 2:6-11 – Deus julgará cada um segundo suas obras, sem favoritismo, tanto judeus quanto gentios.

Romanos 2:12-13 – Não basta ouvir a Lei, mas é a obediência à Lei que justifica diante de
Deus.

Assim, os escritos confirmam a justiça personalizada do julgamento divino, sempre em
conformidade com a verdade.

Mussar na Prática: Atitudes para a Teshuvá

O estudo de Mussar nos ajuda a aplicar este princípio em nossas vidas. Algumas atitudes
práticas:

Autocompreensão: Reconhecer o próprio temperamento. Uma pessoa calma não pode se
vangloriar de “não se irritar”, pois talvez sua prova esteja na generosidade.

Evitar julgamentos precipitados: Não conhecemos as lutas internas de ninguém. Uma
pequena vitória para alguém pode equivaler a uma grande conquista para outro.

Mussar personalizado: Cada um deve trabalhar suas próprias fraquezas. Não há um
caminho único para todos.

Temor a Hashem: Apesar da paciência divina diante de nossas limitações, devemos buscar cumprir as mitzvot com zelo, lembrando que no dia do julgamento não haverá como ocultar a verdade.

Conclusão

Às vésperas de Rosh Hashaná e Yom Kipur, precisamos internalizar que o julgamento de
Hashem é justo porque é individualizado. Ele leva em conta quem somos, onde estamos e
quais batalhas enfrentamos. O Mussar nos chama a trabalhar sobre nossas próprias falhas, sem medir os outros pela nossa régua.

Ao mesmo tempo, somos lembrados de que, apesar da misericórdia divina, não devemos
relaxar: cada oportunidade de cumprir uma mitzvá é preciosa. Teshuvá, Mussar e temor a
Hashem são ferramentas para alinharmos nossos pés novamente no caminho da Torá e nos apresentarmos diante do Rei do Universo com sinceridade e esperança de perdão.


D’vorah Anavá  

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