Os assuntos com que Jung ocupou-se surgiram em parte do seu fundo pessoal, que é vividamente descrito em sua autobiografia, “Memórias, Sonhos, Reflexões” (1961). Ao longo de sua vida, Jung experimentou sonhos periódicos e visões com notáveis características mitológicas e religiosas, os quais despertaram o seu interesse por mitos, sonhos e a psicologia da religião. Ao lado destas experiências, certos fenômenos parapsicológicos emergiam, sempre para lhe redobrar o espanto e o questionamento.
Por muitos anos, Jung sentiu possuir duas personalidades separadas: um ego público, exterior, que era envolvido com o mundo familiar, e um eu interno, secreto, que tinha uma proximidade especial para com D’us. Ele reconhecia ter herdado isso de sua mãe, que tinha a notável capacidade de “ver homens e coisas tais como são”. A interação entre esses egos foi o tema central da sua vida pessoal e contribuiu mais tarde para a sua ênfase no esforço do indivíduo para integração e inteireza.
Seis meses após seu nascimento, os pais de Jung mudaram-se de Kesswill (cantão da Turgóvia), à beira do lago de Constança, e foram morar no presbitério do castelo de Laufen, que domina as quedas do Reno.
O pai, um reverendo, deixou-lhe, como herança, uma fé cega que se mantinha a muito custo com o sacrifício da compreensão. A tarefa do filho seria responder a ele com uma fé renovada, baseada justamente no conhecimento tão rejeitado. Além disso, Jung viria a usar as escrituras como referência para a experiência interior de Deus, não como dogmas estáticos à espera de devoção muda, castradores do desenvolvimento pessoal. Ele lamentava que, à religião, faltasse o empirismo, o que alimentaria a sede da personalidade, e que, às ciências naturais, que também tanto o fascinavam devido ao envolvimento com a realidade concreta, faltasse o significado, que saciaria a personalidade.
Os dois aspectos, religião e ciência, não se tocavam, daí sua constante insatisfação, devido ao desencontro das duas instâncias interiores. E foi dessa tentativa de saciar tanto um aspecto quanto o outro, de fazer justiça ao ser como um todo, que decidiu formar-se em psiquiatria: “Lá estava o campo comum da experiência dos dados biológicos e dados espirituais, que até então eu buscara inutilmente. Tratava-se, enfim, do lugar em que o encontro da natureza e do espírito se torna realidade”.
Ao longo da sua juventude, interessou-se por filosofia e por literatura, especialmente pelas obras de Pitágoras, Empédocles, Heráclito, Platão, Kant e Goethe. Seu interesse pelos ensaios de filósofos como von Hartmann e Nietzsche também foi profundo. Em sua autobiografia, ele descreve a abordagem deste último à obra Assim falou Zaratustra como uma experiência chocante, comparável apenas à que teve inspirada pelo Fausto de Goethe. Uma das suas maiores revelações seria a obra de Schopenhauer. Jung concordava com o irracionalismo que este autor concedia à natureza humana, embora discordasse das soluções por ele apresentadas.
Por influência de sua família, principalmente da parte materna, Jung teve intenso contato com o moderno espiritualismo em sua juventude. Alguns de seus parentes participavam de sessões espíritas durante algum tempo. Seu avô materno, Samuel Preiswerk, era um reverendo luterano que afirmava realizar comunicação com espíritos. Em seu aprofundamento filosófico, Jung colheu modelos explicativos em obras como Sonhos de um Visionário (1766) de Kant e Ensaio sobre a Visão de Espíritos (1851) de Schopenhauer. Essa investigação se estenderia quando participou da fraternidade Zofingia, na qual defendeu o estudo científico do espiritualismo contra a corrente materialista que era majoritária e divulgou o tema em palestras aos colegas de medicina. A investigação desses fenômenos por Jung culminou na realização de sessões espíritas com sua prima médium, Hélène Preiswerk, que foi objeto de pesquisa e resultou em sua tese de doutorado “Sobre a psicologia e psicopatologia dos assim chamados fenômenos ocultos” (1902). Na psiquiatria, foi influenciado por Théodore Flournoy, que havia também publicado um livro sobre uma médium. Os interesses de Jung no espiritualismo continuariam pelo resto de sua vida influenciando o desenvolvimento de sua psicologia.
Já estudante de medicina, decide dedicar-se à então obscura especialidade de psiquiatria, após a leitura ocasional de um livro do psiquiatra Krafft-Ebing. Em 1900, Jung tornou-se estagiário na Clínica Psiquiátrica Burghölzli, em Zurique, então dirigida pelo psiquiatra Eugen Bleuler, famoso pela sua concepção de esquizofrenia.
O galvanômetro desenvolvido e usado por Jung para detectar resposta eletrodermal às palavras.
Será neste contexto que começa a elaborar e aplicar o seu famoso teste de associação ou experimento de associação de palavras que leva o seu nome, relembrando assim o caso de uma jovem melancólica e infanticida, diagnosticada com esquizofrenia ou demência precoce grave. O resultado obtido quatorze dias depois foi a alta hospitalar e ela nunca mais foi internada.
Em 1905 ele recebeu seu doutorado em psiquiatria, tornando-se simultaneamente médico-chefe da clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique por quatro anos, até sua demissão em 1909 por excesso de trabalho. No entanto, ele manteria sua posição como professor assistente até 1913. Naquela época, ele focou seu interesse em psicopatologia, psicanálise e psicologia dos povos primitivos.
De 1904 a 1905 fundou um laboratório de psicopatologia experimental na clínica psiquiátrica, de onde surgiram tanto o teste de associação quanto os experimentos psicogalvânicos, para ser posteriormente convidado, em 1909, pela Clark University para expor seu trabalho. Freud também seria convidado de forma independente, ambos recebendo o título de doutor honoris causa.
Em 1914, Jung demite-se do seu cargo na API e organiza, junto com Alphonse Maeder, as bases da chamada Escola de Zurique. Após a separação de Freud, Jung sentiu o chão desmoronar-se sob os pés. O sentido da sua vida ficou em primeiro plano. Seguiu-se uma série de sonhos e visões que forneceram material para o trabalho de toda uma vida. Dir-se-ia que, se ele não houvesse se empenhado na integração de todo aquele material que jorrou qual lava derretida, teria, fatalmente, sucumbido a uma psicose. Mas algo nele o impelia a ir adiante na compreensão de tudo que se originava naturalmente de seu inconsciente. Em suas palavras, “Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida e, neles, todas as coisas essenciais se decidiram. (…) Toda a minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos (…)”. Foi durante essa fase de confronto com o inconsciente que ele desenvolveu o que chamou de “imaginação ativa”, um método de interação com o inconsciente onde este se investe espontaneamente de várias personificações (pessoas conhecidas e desconhecidas, animais, plantas, lugares, acontecimentos etc.).
Por volta do outono de 1913, Jung alude a uma realocação de sua sintomatologia interna de natureza psíquica. É então que ele tem várias alucinações que se repetirão ao longo do tempo. A dedução diagnóstica que seria alcançada após todo o acúmulo de episódios de aparente natureza psicopatológica seria a do início de uma psicose, consequência direta do rompimento com Freud e sobretudo levando em conta os antecedentes familiares existentes se aventurando na dissociação. Durante a primavera e o início do verão de 1914, episódios semelhantes de natureza catastrófica ocorreriam novamente, mas desta vez na forma de três sonhos sucessivos. No dia 1º de agosto eclodiria a Primeira Guerra Mundial e com ela a confirmação do caráter premonitório de seus sintomas.
Seria 12 de dezembro de 1913 quando afirma: “decidi dar o primeiro passo”. Ele então decidiu confrontar os conteúdos do inconsciente e assim acender um processo de iniciação concomitante em que ele viria a descobrir a existência de algo superior à vontade do ego e ao qual ele deveria se submeter. Jung teve que sacrificar seu ideal e sua atitude consciente. Aos poucos, várias representações arquetípicas surgiriam: o herói (Siegfried, a serpente negra), a sombra, o eu como complexo, o velho sábio (Elias, Filemón, o ka egípcio), a anima (Salomé).
Liber Novus ou Livro Vermelho, confeccionado por Jung a partir das anotações dos Livros Negros resultantes de fantasia ativa, organizando-as. Foram também adicionadas pinturas feitas por Jung com estilização de caligrafia medieval e representando conteúdos simbólicos em um estilo próprio de arte.
Após uma transformação gradual, em 1916 Jung sentiria a necessidade inescapável de escrever, sentindo-se “compelido de dentro para formular e expressar o que Philemon poderia ter dito”. Será, portanto, desse arquétipo que surgirá a obrigação imperativa de transcrever o manuscrito dos Sete Sermões aos Mortos.
Filemon será a imagem desejada por Jung naqueles momentos de perturbação e desordem, “uma sabedoria e um poder supremos que desvendariam para mim as criações espontâneas de minha fantasia”. Que, por um lado, representou a forma de expressão dos “sete sermões”, e que, por outro, deu origem a uma recapitulação teórica e a uma validação da existência autônoma dos arquétipos, para além dos complexos, estendendo-se aos “coletivo” o adjetivo “pessoal” do inconsciente freudiano.
Em suma, tudo isso constituía um “prólogo” do que ele tinha que comunicar ao mundo sobre o inconsciente. Além dos Sete Sermões aos Mortos elaborados em 1916, Jung transcreveu suas experiências entre 1913 e 1932 em uma série de sete manuscritos chamados Livros Negros, dos quais fez o Liber Novus ou Livro Vermelho entre 1914 e 1930.[38] Nessa trajetória inicial, Jung foi influenciado em suas interpretações simbólicas respectivamente pelo mitraísmo, gnosticismo e alquimia.
Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 85 anos, em sua casa, nas margens do lago de Zurique, em Küsnacht, após uma longa vida produtiva, que marcou a antropologia, a sociologia e a psicologia, e também, em outros campos como a arte, a literatura e a mitologia. Encontra-se sepultado no Cemitério da Igreja Protestante, em Küsnacht, no cantão de Zurique, na Suíça. Jung sobreviveu à sua mulher, Emma, e à sua amante Toni Wolff.
Faleceu por volta das quatro horas, após uma curta enfermidade precedida por uma embolia e um acidente vascular cerebral. Ele estava lendo O Fenômeno Humano de Teilhard de Chardin. No momento de sua morte, um raio partiu a árvore onde ele costumava descansar. O jardineiro a curou.
Após os funerais na igreja Küsnacht, Jung foi enterrado no cemitério local. A laje traz o brasão da família Jung e, ao lado, os nomes do pai, mãe, irmã, Emma e Carl. Nos frisos superior e inferior a gravura: Vocatus adque non vocatus deus aderit (Evocado ou não evocado, D’us estará presente). Dos lados direito e esquerdo, a frase: Primus homo de terra terrenus. Secundus homo de caelo caelestis (O primeiro homem procede da terra e é terreno; o segundo homem procede do céu e é celeste).